Rosa Maria Silva de Souza e Luiz Inácio Lula da Silva tiveram trajetórias de vida bastante semelhantes. Rosa e Lula nasceram pobres na década de 1940, quando o Brasil começava a colher os frutos de sua tardia industrialização e a construir o cânion da desigualdade que até hoje nos envergonha pela distância entre as suas margens e pela profundidade tenebrosa responsável pelos milhares de miseráveis que, à espera da Copa do Mundo, ainda dormem pelas calçadas nas portas dos Bancos, representantes diretos do capitalismo internacional.
Filha e filho de mães lutadoras e solitárias, tudo foi muito difícil para Rosa e Lula, até o dia em que ambos, ainda muito jovens, conquistaram o seu primeiro emprego decente. Lula em uma metalúrgica, Rosa em um posto de atendimento de saúde do Ministério do Exército. Lula queria mesmo ser metalúrgico, Rosa queria ser professora e estudava para isso. Lula ainda não compreendia muito bem essa questão de luta de classes, mas como era bom orador acabou tornando-se liderança de uma categoria que via crescer a sua importância no cenário nacional. Enquanto isso, em plena ditadura militar, Rosa, além do trabalho e da faculdade, militava, junto ao seu companheiro de vida e afeto, no PCdoB, um dos partidos de resistência à sangrenta ditadura que se espalhava por toda a América Latina.
Quando Lula foi preso, com o mundo todo sabendo de sua prisão por conta da militância nas greves, Rosa já tinha sido arrancada duas vezes de seus postos de trabalho para o cárcere clandestino muito comum nos anos de chumbo. Se tudo foi muito ruim para as figuras públicas, podemos imaginar o que é estar em uma cadeia sem que ninguém saiba de nosso paradeiro. Ademais, não temos informação de que Lula tenha sido torturado como foram aqueles que, como Rosa, caíram nos quartéis do exército ou nas dependências do Doi-Codi, os espaços escolhidos pela ditadura para os espancamentos e todas as violações do estado de direito que se tem notícia. Estavam permanentemente ao lado do metalúrgico altas representatividades da Igreja e nós em plena vigília para não deixar que nada acontecesse à interessante liderança que surgia.
Rosa, por conta dos olhares obtusos dos poderes, jamais teve uma remuneração condigna em suas profissões. Quando tudo passou, já formada em história, escolheu a educação como seu instrumento de luta e trabalho, objetivando a realização de um sonho frustrado pela luta política. Ainda assim, juntamente com Lula e uma legião de militantes sindicais, fundaram o PT, ele na cúpula e ela nas bases. Cessam por aí, todas as semelhanças referentes às trajetórias de vida desses interessantes militantes. Lula transformou-se no Presidente eterno. Primeiro do sindicato, depois do Partido dos Trabalhadores e finalmente da República com salários pagos pelo partido, pelo sindicato e pela nação. Rosa, sempre mal remunerada, como uma convicta professora de rede pública, seguiu sofrendo e apostando na redenção da Escola que serve aos menos privilegiados.
Nessa época, Lula já sonhava em ser presidente da república e nós em fazer dele o nosso presidente. Rosa vivia nas ruas ajudando a construir um sonho que, quando foi realizado, já não tinha as matizes do poder popular com o qual sonhamos por três longas décadas. Lula já era outro, já pensava em um tipo de democracia diferente da nossa e a palavra socialismo há muito tinha saído de seu vocabulário, ainda assim ficamos felizes por sua chegada ao poder. Rosa, a cada dia, ficava mais distante de seu companheiro famoso e começava a dar sinais de que as pancadas da ditadura, com muita rapidez, se transformavam em doenças crônicas: a asma, a osteoporose, a síndrome de pânico e as demências chegaram muito cedo. Lula comemorava a sua segunda chegada ao poder, Rosa a amargura de uma aposentadoria precoce e compulsória pela incapacidade de trabalhar quando a maioria da população ainda sonha com a produtividade que nos felicita e nos enche de prazer.
Seguindo por caminhos cada vez mais divergentes, Lula foi um dos primeiros agraciados pela aposentadoria dos anistiados, uma justa recompensa construída no Governo de Fernando Henrique Cardoso para reparar os danos sofridos pelos perseguidos pelos governos militares pós-64. Rosa, ainda hoje, luta para recebê-la. Com a aposentadoria de Presidente da República, Luiz Inácio recebe agora um razoável salário que vai lhe garantir uma vida tranqüila enquanto por aqui estiver. Rosa sofre com as dificuldades para pagamento do plano de saúde, remédios caríssimos, alimentação precária, pagamento de aluguel e a desconfiança de que, de nada lhe servirá a reparação a que tem direito pelas inúmeras perdas que sofreu, fruto de sua luta pelo advento de uma sociedade mais justa.
Mais recentemente, soubemos que a Comissão de Anistia, no afã de apressar o julgamento dos processos, criou blocos temáticos para várias categorias, blocos partidários ou profissões de tal forma que alguns partidos puderam fazer com que seus militantes fossem agraciados em solenidades por todo o Brasil. Marinheiros, militantes sindicais, bombeiros e mais uma série de ativistas, reunidos por uma afinidade qualquer, também acabaram passando na frente de milhares de militantes isolados que morrem à míngua à espera do que lhe é justo e devido. Nesse aparente arroubo de justiça, foram contemplados 2500 marinheiros que nada tinham a ver com a luta pelas liberdades e que levaram inúmeros companheiros à morte. Em tese, e para não ser leviano, pelo menos uma parte deles dona dos cassetetes que enchiam de porrada os militantes que caiam nos paredões assassinos do CENIMAR.
Como até eles foram beneficiados pensamos: é possível que agora a Comissão de Anistia vá criar um bloco temático de professores. Nada disso aconteceu. Nessa época também pensávamos que pelo menos os professores torturados pudessem se constituir em um bloco e que pelo menos dessa vez nós levássemos alguma vantagem. Ledo engano! Mais uma vez ficamos esquecidos. Nenhum bloco temático foi criado para atenuar as injustiças contra os que morreram ou vão morrer pensando no surgimento de uma escola pública de qualidade.
O que a mim, e a uma boa parcela dos que sabem dos fatos, deixa perplexo é que os últimos presidentes de alguma forma vivenciaram as dores do cárcere ou do exílio. Dilma Roussef, repetidas vezes, falou sobre as torturas que sofreu. Com a sua chegada ao poder passamos a achar que ela ia dizer também aos gritos: se não conseguimos punir os que torturaram em nome do estado, pelo menos, quando este confessar os seus crimes, pague-se o mais urgente possível.
Para que todos saibam do que eu estou falando, os processos de reparação somente são abertos quando a ABIN que substituiu o SNI assume a prisão através de um diploma funesto cheio de marcas d’água dizendo: EU PRENDI, EU MATEI, EU TORTUREI, EU ARRANQUEI DE SUAS MÃOS OS EMPREGOS CONQUISTADOS EM LÍCITOS CONCURSOS, EU OS DEIXEI MORRER À MINGUA. Depois disso, o próprio estado mandar proceder a uma série de averiguações que, se fossem feitas para todos, se teria percebido que, dentre os 2500 marinheiros anistiados e que, por ora, gozam de privilégios indevidos, estavam torturadores, mentirosos e aproveitadores de toda a sorte. O caso de Rosa é ainda mais emblemático pelo fato de ela ter sido retirada, por duas vezes, debaixo de porrada de dentro de duas repartições públicas: na primeira prisão, de seu posto de trabalho em hospital do Ministério do Exército em Benfica e na segunda, de um hospital do INPS no Centro do Rio de Janeiro. Essas informações constam de seus documentos trabalhistas e do diploma fornecido pelo estado. Ainda assim, põe-se a Comissão de Anistia a caminhar pelos buracos destruídos e inexistentes para investigar o óbvio.
Rosa, resignada, e já não compreendendo muito bem o que se passa com este país, espera que a nova presidenta pense em uma forma de agilizar o andamento dos processos também para aqueles que não pertencem a nenhuma agremiação, nem tiveram a sorte se tornar adorado como o metalúrgico presidente. É bom lembrar que boa parte dessas pessoas não tem sequer mais forças para reivindicar, estão velhos e cansados de lutar por uma pátria que se queria, e que ainda queremos vê-la, justa, fraterna e solidária. A omissão do metalúrgico pode agora ser reparada pela presidente que sofreu as dores da perseguição, da tortura e do desterro. Ainda há tempo!
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