
Gosto de escrever e escrevo sistematicamente. Venho publicando, nos últimos dez, pelo menos um livro a cada dois anos e tenho a preocupação de submeter o meu trabalho a dois revisores. O primeiro sempre levanta mais de cem erros, o segundo mais dez e o livro, para meu desespero, ainda sai com quatro ou cinco erros das mais diversas procedências e qualidades. Nada diferente do que vem ocorrendo com os livros do governo. Ou melhor, com os livros que o governo compra com o sacrifício de nossos salários.
Esse fenômeno passou a ser notado, desde que o poder central, através do FNDE, passou a comprar os livros didáticos para todo o país. De uns dez ou quinze anos para cá, O MEC transformou-se no maior cliente para este tipo de produto, aplicando bilhões de reais todos os anos em material para distribuição aos alunos das escolas públicas. Mais ou menos nesta época, começaram a aparecer os problemas. Quem é professor, está cansado de pegar erros grosseiros e de assistir a um variado cardápio de plágios que, de vez em quando, carrega para outro livro até os erros cometidos no primeiro, como prêmio ou castigo pela audácia da cópia.
A primeira questão que se coloca é de fundo didático-pedagógico motivado pelas interesseiras contradições que permeiam o mundo acadêmico. Todas as pessoas que fazem parte das tais comissões de avaliação do livro didático sabem que, no mínimo são coniventes com a corrupção que se instalou para facilitação da entrada dos incautos em um mercado tão concorrido. Por isso contrariam os seus próprios princípios e os princípios das academias, nas quais aprenderam todas as lições, quando aprovam livros para que sejam utilizados por meninos e meninos habitantes das mais diversas realidades. Todos (as) sabem que o livro da Ilha de Marajó não tem muito sentido quando lido pelos meninos da Lagoa dos Patos, mas com tanto dinheiro em jogo, quem é que vai contrariar a organização.
A outra questão diz respeito aos prazos para confecção dos livros. Como o MEC precisa montar as falsas licitações e fazer com que os professores escolham o material em uma lista fechada, passou também a exigir prazo aos fazedores de livros e estes para atender aos chamados do MEC, passaram a confiar demais nos computadores desprezando a atuação de um profissional muito importante para este tipo de trabalho que é o revisor final. Os jornais diários, também tomaram essa decisão, mas sabendo dos erros que cometem cotidianamente, criaram uma coluna para correção e justificativa de seus próprios erros. Ressalve-se ainda que um erro gráfico no jornal, não deve ser entendido como coisa tão grave quanto nos livros dos pequenos aprendizes.
A terceira questão, está diretamente ligada à natureza humana que, ao vislumbrar a possibilidade de lucro imediato, despreza a ética, fazendo livros às pressas para atender ao chamado das fraudulentas concorrências muitas vezes patrocinadas pelo capital estrangeiro das dezenas de editoras que passaram a ver nesta terra de ninguém um espaço privilegiado para o aumento de seus lucros. Assim procedem porque sabem que os rombos somente aparecem quando mais um ministro que ficou rico ilicitamente chama à nossa atenção para a existência perene da nefasta corrupção ou quando alguma empresa sente-se prejudicada pela quebra dos acordos firmados.
Não faz muito tempo, o próprio MEC tomou conhecimento de uma leva de livros que apareceu em uma lixeira nordestina, depois o caso caiu no esquecimento. O governo sequer tem vergonha de, ao final do ano, exigir que os meninos devolvam os livros que usaram e que ficaram cheios de boas recordações, quando ele mesmo sabe que toneladas do produto não utilizadas acabam pelos sebos ou nas guilhotinas das empresas que compram papéis velhos, fruto de aquisições super-dimensionadas, para que ninguém viole os espúrios acordos firmados. Com relação aos livros da lixeira do nordeste, o próprio MEC ficou de investigar, mas deixou cair no esquecimento e até hoje não sabemos quem foi o responsável pelo achado macabro.
Quero dizer com isso, que os recentes erros de português e matemática são frutos desses apressamentos governamentais. O que está errado no livro de português que dividiu a linguística brasileira, não é o fato de o livro dizer que podemos utilizar uma ou outra forma de fala ou escrita, mas, a meu ver, faltou texto para a explicação ou para ser mais sincero, um pouco mais de erudição para o entendimento daquilo que os escritores queriam dizer. Também no caso do livro de matemática a pressa para que o dinheiro chegasse mais rápido na conta da empresa fornecedora fez com que o matemático não visse que a diferença entre dez e sete não tem o número quatro como resultado. Ou alguém, depois de ler a matéria de O Globo, ficou pensando que o professor não soube fazer a continha de diminuir?
Não! Todos sabem de tudo, mas o governo abriu as portas da corrupção às pressões da indústria de livros e nós professores deveríamos pagar por nossos erros quando ficamos com os olhos vidrados sobre aquele amontoado de besteiras escritas naqueles grossos exemplares que chegam, de vez em quando, para meninos e meninas da escola pública. Os livros para as quintas-séries (agora sextos-anos) engrossam a cada ano e já começam a ficar parecidos com os vade-mécuns das escolas de medicina e direito. Começo a achar que o governo paga pelo número de páginas. Imaginem o que é perceber em um livro de matemática uma série de exercícios repetitivos, quando todos sabem que o conhecimento não se constrói pela quantidade de vezes que uma determinada equação é refeita. Com todo respeito aos autores, mas dentro da linha da repetição para memorizar, o Método Kumon é melhor e consome muito menos dinheiro e papel.
Depois , como ninguém cobra, fica aquela metade final do livro com os temas de geometria que as crianças nunca viram ou testaram. Ora porque os professores de matemática não gostam muito de geometria, ora porque os governos não se preocupam com a compra dos instrumentos que possibilitariam às crianças os primeiros movimentos com os artefatos criados pelo homem para as aferições de natureza prática. Quantas crianças ou adolescentes terminam o segundo grau e nunca usaram um compasso? Quantas nunca fizeram uso correto de um par de esquadros? Mas os livros estão lá repletos de belas imagens coloridas (para aumentar o preço do embrulho) à espera da fogueira na qual, mais tarde, de uma forma ou de outra, irão arder.
O que lamento, é o fato de os mesmos professores que nas universidades enchem a boca para falar em diversidade cultural, construção do livro didático apropriado para cada realidade, ao chegaram às tais comissões esquecem-se do que aprenderam/ensinaram e colaboram para a evolução do besteirol que, gradativamente, quando vai tomando conta dos livrinhos da garotada.
Para além das questões referentes aos erros que motivaram a discórdia, restam os problemas de plágio de texto e imagem, mas creio que isto diz respeito aos autores. Os livros, acompanhando a forma de produção dos automóveis e dos dicionários, vão ficando cada dia mais parecidos, nos títulos, nas figuras reutilizadas, nos textos semi-copiados para a realização do decantado fracasso. A queda do muro de Berlim derrubou ideologias, posicionamentos e posturas. Todos devem pensar e agir, mais ou menos do mesmo modo. Todos devem atender ao chamado do poder para alguma dobra, com a garantia de que todos sejam aquinhoados com alguma sobra. Aprendemos a preferir o silêncio, a concordar com as propostas sem que saibamos sobre suas procedências e intencionalidades. O livro didático, com seus erros e acertos, é apenas uma parte da pasteurização ideológica que faz com que todos nós fiquemos bastante parecidos, inclusive no espanto diante de algo que foi criado e organizado para este mesmo fim. Mas se é assim, por que o espanto?
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