Ah... eu me lembro muito bem
Do dia em cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Pés cansados e feridos de andar légua tirana...
Antonio Carlos Belchior
O navio que nos retirou da seca não existe mais. Chamava-se Capela, uma embarcação tosca que, uma vez por mês, trazia os nordestinos de Sergipe para o Rio de Janeiro. Chegamos aqui em fevereiro de 1957: eu, uma prima e uma tia, a minha segunda mãe. Meu pai, lembro-me bem do dia em que partimos, resolvera ficar para, inconscientemente, protagonizar a saga dos que resistem e seguem justificando a máxima que nos engana ao longo da história: o sertanejo é antes de tudo um forte!
À nossa espera, sete dias mais tarde no Cais do Porto do Rio de Janeiro, além de uma chuça fina, estava o Tio José, que cuidadosamente viera nos buscar para que, em sua casa, fizéssemos a quarentena comum aos que chegar do nordeste. Trata-se de um hábito solidário da parentalha para com os retirantes, até que surja o primeiro emprego para aqueles que ainda podem trabalhar: uma espécie de incubadora curativa das mazelas causadas pelas dificuldades que enfrentam os que fogem da seca.
Do Porto até Vigário Geral, levamos quase duas horas em um ônibus engraçado com cara de porco que o povo chamava de lotação e cujo ponto final ficava na Praça Catolé do Rocha, bem perto do local da grande chacina que chocou o povo carioca e na qual, há cerca de 20 anos, perderam a vida mais de vinte trabalhadores. Mas o bairro, naquela época, em nada se parecia com o aglomerado de favelas que, hoje, começa no município de Duque de Caxias e vai seguindo o mar até as cercanias do cemitério do Caju, que fica no bairro de mesmo nome. Andamos mais quarenta minutos e pronto: já estávamos na casa em que passaríamos os primeiros quatro anos de Rio de Janeiro e, eu, os mais interessantes momentos de minha infância.
Além do medo da fome da fome, o nordestino que vem para o sul, traz a certeza de que seus filhos se salvarão do analfabetismo, uma praga da qual, a maioria dos adultos que vivem no polígono da seca, não tem a mínima chance de se livrar. Chegamos numa segunda-feira de Carnaval e um mês depois eu já estava matriculado na escolinha de Dona Maria do Carmo, uma senhora carrancuda de cuidava da alfabetização daqueles que desejavam ganhar um ano quando de seu ingresso da rede pública. Eu mesmo já entrei na segunda série, aos sete anos de idade, e lá permaneci até a conclusão do ensino primário, naquela época, o ponto de parada dos estudos da imensa maioria dos filhos das classes subalternas.
Para que tenhamos noção do abismo que havia entre os mais pobres e as escolas de ensino secundário e médio, em toda a região da Leopoldina, até o ano de 1971, só existia o colégio Gomes Freire de Andrade, quase chegando em Olaria, e o professor Clóvis Monteiro, entre os bairros de Bonsucesso e Higienópolis. Sem opção acabei indo estudar em escolas particulares, a essa altura, tutelado pela minha terceira mãe, uma prima mais velha que me adorava e morria de vontade de me ver formado. O ensino médio, quatro anos mais tarde, já fora bancado com o resultado de meu trabalho, como auxiliar de alfaiataria.
Entre idas, vindas e carência de quase tudo, passei toda a adolescência e parte da minha juventude no triângulo carioca que apresenta os piores índices referentes à qualidade de vida de seus habitantes; mais precisamente, no interior das linhas que delimitam os bairros de Vigário Geral, Pavuna e Acari, região que os sociólogos apontam e os números confirmam como uma das que detêm os piores índices de desenvolvimento humano do Estado do Rio de Janeiro.
Quando menino, meu desejo era ser cantor ou jogador de qualquer coisa. Na puberdade, as primeiras medalhas criaram em mim a ilusão de que poderia ser um Ademar Ferreira da Silva, mas tudo era muito distante e os sonhos iam-se dissipando. Restaram os pincéis, alguns conseguidos com os pintores de beira de estrada que, na Dutra, ficavam à espera dos motoristas que desejavam personalizar as suas máquinas transportadoras. Ficaram em mim as mulheres nuas devoradas pelas águias, um realismo mágico distante dos tratados de Breton, Duchamp ou Dalí, mas foi ele quem acabou me empurrando para os cursos de desenho e , quando o dinheiro sobrou, para o Departamento de Artes e Arquitetura do Instituo Metodista Bennett, já no ano de 1974. No ano seguinte casei-me com o amor de minha adolescência e dessa união nasceram Gandhi e Iuri, meus dois filhos naturais, que também são professores.
A escola onde fiz meus estudos de nível superior era um espaço para os filhos da pequena burguesia. Ainda assim devo reconhecer que era nela que me escondia da ditadura cambaleante no início de minha militância político-partidária. Em seus amplos e agradáveis espaços, conheci Augusto Rodrigues, Lauro de Oliveira Lima e Noêmia Varella. Por tanto ouvi-los, acabei apaixonado pela profissão que escolhi, muito embora os dez primeiros anos de minha vida profissional tenham sido, por necessidade financeira, transcorridos em meio a uma correria atrás da calculadora, da prancheta e dos pincéis, instrumentos que, neste período, ajudaram a sustentar a minha pequena prole. Somente em 1984, sem abandonar totalmente a pintura, fui fazer aquilo que mais gostava. Comecei a lecionar e, no ano seguinte, entrei, através de concurso público, para a rede pública de ensino do município do Rio de Janeiro. No plano político, o País reconquistava a democracia, mas os profissionais do magistério amargavam com os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. Quando percebi estava praticamente morando no sindicato e, sem nenhuma percepção muito clara do que aconteceria mais à frente, ia me tornando educador.
Exponho neste memorial a parte mais interessante das coisas que, coletivamente, produzimos eu e os companheiros que fui fazendo ao longo de minha história estudantil e profissional. Afora a pintura, que carece de um exercício de solidão, todas as outras coisas bonitas que vi acontecer, foram feitas a dezenas de mãos: da cerâmica de Selma Calheira que quase me arrebata e que me pôs numa perene órbita em torno do Barro, à bela e romântica arquitetura de Cláudio Cavalcanti, um pernambucano com quem trabalhei em um agradável espaço da Siqueira Campos, bem junto ao mar de Copacabana. Isso sem falar nas inúmeras ações que empreendemos pelas escolas do Rio de Janeiro e nos interstícios da luta sindical que, em última instância, objetivavam a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro.
Foram esses aglomerados humanos produtivos, aos quais os franceses chamam de atelier e os americanos de bureau, que me ajudaram a construir, no cotidiano escolar, os aportes de meu trabalho político pedagógico e a alicerçar, não um modelo, mas a forma de lidar com a filharada das classes populares. Um trabalho que procura historiar as virtudes da cooperação contrapondo-se à lógica utilitarista que vê a competição como a forma mais simples e direta de fazer com que a sociedade possa caminhar para patamares mais confortáveis, especialmente quando o tema em pauta é a melhoria da qualidade de vida da população.
Podia ainda contar muitas histórias, mas as três últimas décadas, tempo em que vivi entre o sindicato e a escola, foram feitas de dias muito difíceis, tanto para a população que precisa da escola pública, quanto para os profissionais que apostaram nas promessas de todos os governos que passaram pelo estado e pelo município do Rio de Janeiro. Dizer que a escola piorou, nos aproxima mais da verdade do que tentar convencer a alguém de que algo melhorou desde 1982, quando tomou posse em nosso estado o primeiro governador eleito na agonia do regime ditatorial. Ainda sonhamos com um piso de cinco salários mínimos para os professores e três para o pessoal de apoio. Em nenhum momento conseguimos, aproximar os nossos rendimentos desses valores.
Olhando para além dos benefícios classistas, tudo é ainda mais desanimador. Quando comecei a dar aulas, o município do Rio de Janeiro contava com uma rede de 1035 escolas para o ensino fundamental. Quase 30 anos depois, com a população crescendo, em média, 1,0% ao ano, o número de escolas, já com os Cieps incorporados por conta da municipalização, aumentou para 1065. Um aumento percentual de 3% quando o crescimento da população foi de mais de 20%, no mesmo período. Éramos 5.100.000 em 1982, somos, hoje, cerca de 6.350.000, pelos últimos dados do IBGE. Para que a escola continuasse funcionando mergulhada em sua precariedade, dezenas de pequenos golpes foram dados na população fazendo com que entrássemos no século XXI desnorteados com os resultados que medem a qualidade de nosso ensino público. Um deles, para mim o mais bem aplicado e grande responsável pelo estado de calamidade educacional de nosso estado e de nosso município, foi a estúpida decisão da gestão César Maia, de reduzir o número de tempos de aulas diárias de seis para cinco. Imperceptível a falcatrua, mas com um só movimento ele evitou a contratação de cerca 6.000 professores e a construção de 150 escolas, números que pelas projeções estatísticas, não tirariam da lama, mas oxigenariam a rede de ensino mais complexa do continente.
Apesar de todos os embustes, permaneci na rede pública municipal por mais de 11 anos. Na rede estadual, tive o mais interessante projeto em minhas mãos, ao lecionar por três anos em uma escola tradicional de formação de professores, mas abandonei o emprego quando percebi que existia e ainda, de todo, não se dissipou o desejo latente, nos governantes que desde 1982 por aqui passaram, de fazer com que morram à míngua todos aqueles que se licenciaram pensando em dar aos filhos da classe trabalhadora um ensino de melhor qualidade. Pelo menos um, que gostava muito de crianças, num arroubo de insanidade, disse isto textualmente e completou: vou fazer a promoção automática para que as crianças não dependam mais de vocês!
Caminhando sobre pedras lisas e escorregadias, cheguei, em 1992, também através de concurso público, à escola pública do município de Angra dos Reis. Vivíamos um momento de esperança, de realização de sonhos e da colocação em prática de novos experimentos em uma escola administrada ideologicamente pelo partido que ajudamos a construir e que, mais recentemente, nos trouxe tantas decepções. Apesar dos entraves causados pelas vaidades inerentes a todas as formas de poder, foi esta rede que me deu as maiores oportunidade de desenvolver e coordenar projetos para a criançada mais arredia frente às exigências da escola tradicional. Um deles, de correção de fluxo, que durou pelo menos seis anos (de 1998 a 2004) em governos de diferentes matizes ideológicos, é o inspirador do meu projeto de tese para o doutorado.
Em 2000, quando deixamos a Secretaria de Educação por conta da primeira derrota política no município, retornei à Universidade para a realização do meu curso de mestrado. Em seguida, passei cinco anos na Universidade Estácio de Sá, no departamento de didática e gestão. Atualmente, além do meu ofício na escola de ensino fundamental, trabalho com dois grupos de cultura popular da região sul-fluminense (Cirandeiros e Pescadores de Tarituba e Comunidade Quilombola do Bracuí) e um do município do Rio de Janeiro (Comunidade Festiva de Bumba-Meu-Boi Brilho de Lucas) espaços de vivência comunitária e experimentos onde, juntamente com as escolas públicas por onde passei, deveremos realizar os estudos para a consecução dos estudos de doutorado.
Antonio Eugenio do Nascimento
Do dia em cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Pés cansados e feridos de andar légua tirana...
Antonio Carlos Belchior
O navio que nos retirou da seca não existe mais. Chamava-se Capela, uma embarcação tosca que, uma vez por mês, trazia os nordestinos de Sergipe para o Rio de Janeiro. Chegamos aqui em fevereiro de 1957: eu, uma prima e uma tia, a minha segunda mãe. Meu pai, lembro-me bem do dia em que partimos, resolvera ficar para, inconscientemente, protagonizar a saga dos que resistem e seguem justificando a máxima que nos engana ao longo da história: o sertanejo é antes de tudo um forte!
À nossa espera, sete dias mais tarde no Cais do Porto do Rio de Janeiro, além de uma chuça fina, estava o Tio José, que cuidadosamente viera nos buscar para que, em sua casa, fizéssemos a quarentena comum aos que chegar do nordeste. Trata-se de um hábito solidário da parentalha para com os retirantes, até que surja o primeiro emprego para aqueles que ainda podem trabalhar: uma espécie de incubadora curativa das mazelas causadas pelas dificuldades que enfrentam os que fogem da seca.
Do Porto até Vigário Geral, levamos quase duas horas em um ônibus engraçado com cara de porco que o povo chamava de lotação e cujo ponto final ficava na Praça Catolé do Rocha, bem perto do local da grande chacina que chocou o povo carioca e na qual, há cerca de 20 anos, perderam a vida mais de vinte trabalhadores. Mas o bairro, naquela época, em nada se parecia com o aglomerado de favelas que, hoje, começa no município de Duque de Caxias e vai seguindo o mar até as cercanias do cemitério do Caju, que fica no bairro de mesmo nome. Andamos mais quarenta minutos e pronto: já estávamos na casa em que passaríamos os primeiros quatro anos de Rio de Janeiro e, eu, os mais interessantes momentos de minha infância.
Além do medo da fome da fome, o nordestino que vem para o sul, traz a certeza de que seus filhos se salvarão do analfabetismo, uma praga da qual, a maioria dos adultos que vivem no polígono da seca, não tem a mínima chance de se livrar. Chegamos numa segunda-feira de Carnaval e um mês depois eu já estava matriculado na escolinha de Dona Maria do Carmo, uma senhora carrancuda de cuidava da alfabetização daqueles que desejavam ganhar um ano quando de seu ingresso da rede pública. Eu mesmo já entrei na segunda série, aos sete anos de idade, e lá permaneci até a conclusão do ensino primário, naquela época, o ponto de parada dos estudos da imensa maioria dos filhos das classes subalternas.
Para que tenhamos noção do abismo que havia entre os mais pobres e as escolas de ensino secundário e médio, em toda a região da Leopoldina, até o ano de 1971, só existia o colégio Gomes Freire de Andrade, quase chegando em Olaria, e o professor Clóvis Monteiro, entre os bairros de Bonsucesso e Higienópolis. Sem opção acabei indo estudar em escolas particulares, a essa altura, tutelado pela minha terceira mãe, uma prima mais velha que me adorava e morria de vontade de me ver formado. O ensino médio, quatro anos mais tarde, já fora bancado com o resultado de meu trabalho, como auxiliar de alfaiataria.
Entre idas, vindas e carência de quase tudo, passei toda a adolescência e parte da minha juventude no triângulo carioca que apresenta os piores índices referentes à qualidade de vida de seus habitantes; mais precisamente, no interior das linhas que delimitam os bairros de Vigário Geral, Pavuna e Acari, região que os sociólogos apontam e os números confirmam como uma das que detêm os piores índices de desenvolvimento humano do Estado do Rio de Janeiro.
Quando menino, meu desejo era ser cantor ou jogador de qualquer coisa. Na puberdade, as primeiras medalhas criaram em mim a ilusão de que poderia ser um Ademar Ferreira da Silva, mas tudo era muito distante e os sonhos iam-se dissipando. Restaram os pincéis, alguns conseguidos com os pintores de beira de estrada que, na Dutra, ficavam à espera dos motoristas que desejavam personalizar as suas máquinas transportadoras. Ficaram em mim as mulheres nuas devoradas pelas águias, um realismo mágico distante dos tratados de Breton, Duchamp ou Dalí, mas foi ele quem acabou me empurrando para os cursos de desenho e , quando o dinheiro sobrou, para o Departamento de Artes e Arquitetura do Instituo Metodista Bennett, já no ano de 1974. No ano seguinte casei-me com o amor de minha adolescência e dessa união nasceram Gandhi e Iuri, meus dois filhos naturais, que também são professores.
A escola onde fiz meus estudos de nível superior era um espaço para os filhos da pequena burguesia. Ainda assim devo reconhecer que era nela que me escondia da ditadura cambaleante no início de minha militância político-partidária. Em seus amplos e agradáveis espaços, conheci Augusto Rodrigues, Lauro de Oliveira Lima e Noêmia Varella. Por tanto ouvi-los, acabei apaixonado pela profissão que escolhi, muito embora os dez primeiros anos de minha vida profissional tenham sido, por necessidade financeira, transcorridos em meio a uma correria atrás da calculadora, da prancheta e dos pincéis, instrumentos que, neste período, ajudaram a sustentar a minha pequena prole. Somente em 1984, sem abandonar totalmente a pintura, fui fazer aquilo que mais gostava. Comecei a lecionar e, no ano seguinte, entrei, através de concurso público, para a rede pública de ensino do município do Rio de Janeiro. No plano político, o País reconquistava a democracia, mas os profissionais do magistério amargavam com os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. Quando percebi estava praticamente morando no sindicato e, sem nenhuma percepção muito clara do que aconteceria mais à frente, ia me tornando educador.
Exponho neste memorial a parte mais interessante das coisas que, coletivamente, produzimos eu e os companheiros que fui fazendo ao longo de minha história estudantil e profissional. Afora a pintura, que carece de um exercício de solidão, todas as outras coisas bonitas que vi acontecer, foram feitas a dezenas de mãos: da cerâmica de Selma Calheira que quase me arrebata e que me pôs numa perene órbita em torno do Barro, à bela e romântica arquitetura de Cláudio Cavalcanti, um pernambucano com quem trabalhei em um agradável espaço da Siqueira Campos, bem junto ao mar de Copacabana. Isso sem falar nas inúmeras ações que empreendemos pelas escolas do Rio de Janeiro e nos interstícios da luta sindical que, em última instância, objetivavam a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro.
Foram esses aglomerados humanos produtivos, aos quais os franceses chamam de atelier e os americanos de bureau, que me ajudaram a construir, no cotidiano escolar, os aportes de meu trabalho político pedagógico e a alicerçar, não um modelo, mas a forma de lidar com a filharada das classes populares. Um trabalho que procura historiar as virtudes da cooperação contrapondo-se à lógica utilitarista que vê a competição como a forma mais simples e direta de fazer com que a sociedade possa caminhar para patamares mais confortáveis, especialmente quando o tema em pauta é a melhoria da qualidade de vida da população.
Podia ainda contar muitas histórias, mas as três últimas décadas, tempo em que vivi entre o sindicato e a escola, foram feitas de dias muito difíceis, tanto para a população que precisa da escola pública, quanto para os profissionais que apostaram nas promessas de todos os governos que passaram pelo estado e pelo município do Rio de Janeiro. Dizer que a escola piorou, nos aproxima mais da verdade do que tentar convencer a alguém de que algo melhorou desde 1982, quando tomou posse em nosso estado o primeiro governador eleito na agonia do regime ditatorial. Ainda sonhamos com um piso de cinco salários mínimos para os professores e três para o pessoal de apoio. Em nenhum momento conseguimos, aproximar os nossos rendimentos desses valores.
Olhando para além dos benefícios classistas, tudo é ainda mais desanimador. Quando comecei a dar aulas, o município do Rio de Janeiro contava com uma rede de 1035 escolas para o ensino fundamental. Quase 30 anos depois, com a população crescendo, em média, 1,0% ao ano, o número de escolas, já com os Cieps incorporados por conta da municipalização, aumentou para 1065. Um aumento percentual de 3% quando o crescimento da população foi de mais de 20%, no mesmo período. Éramos 5.100.000 em 1982, somos, hoje, cerca de 6.350.000, pelos últimos dados do IBGE. Para que a escola continuasse funcionando mergulhada em sua precariedade, dezenas de pequenos golpes foram dados na população fazendo com que entrássemos no século XXI desnorteados com os resultados que medem a qualidade de nosso ensino público. Um deles, para mim o mais bem aplicado e grande responsável pelo estado de calamidade educacional de nosso estado e de nosso município, foi a estúpida decisão da gestão César Maia, de reduzir o número de tempos de aulas diárias de seis para cinco. Imperceptível a falcatrua, mas com um só movimento ele evitou a contratação de cerca 6.000 professores e a construção de 150 escolas, números que pelas projeções estatísticas, não tirariam da lama, mas oxigenariam a rede de ensino mais complexa do continente.
Apesar de todos os embustes, permaneci na rede pública municipal por mais de 11 anos. Na rede estadual, tive o mais interessante projeto em minhas mãos, ao lecionar por três anos em uma escola tradicional de formação de professores, mas abandonei o emprego quando percebi que existia e ainda, de todo, não se dissipou o desejo latente, nos governantes que desde 1982 por aqui passaram, de fazer com que morram à míngua todos aqueles que se licenciaram pensando em dar aos filhos da classe trabalhadora um ensino de melhor qualidade. Pelo menos um, que gostava muito de crianças, num arroubo de insanidade, disse isto textualmente e completou: vou fazer a promoção automática para que as crianças não dependam mais de vocês!
Caminhando sobre pedras lisas e escorregadias, cheguei, em 1992, também através de concurso público, à escola pública do município de Angra dos Reis. Vivíamos um momento de esperança, de realização de sonhos e da colocação em prática de novos experimentos em uma escola administrada ideologicamente pelo partido que ajudamos a construir e que, mais recentemente, nos trouxe tantas decepções. Apesar dos entraves causados pelas vaidades inerentes a todas as formas de poder, foi esta rede que me deu as maiores oportunidade de desenvolver e coordenar projetos para a criançada mais arredia frente às exigências da escola tradicional. Um deles, de correção de fluxo, que durou pelo menos seis anos (de 1998 a 2004) em governos de diferentes matizes ideológicos, é o inspirador do meu projeto de tese para o doutorado.
Em 2000, quando deixamos a Secretaria de Educação por conta da primeira derrota política no município, retornei à Universidade para a realização do meu curso de mestrado. Em seguida, passei cinco anos na Universidade Estácio de Sá, no departamento de didática e gestão. Atualmente, além do meu ofício na escola de ensino fundamental, trabalho com dois grupos de cultura popular da região sul-fluminense (Cirandeiros e Pescadores de Tarituba e Comunidade Quilombola do Bracuí) e um do município do Rio de Janeiro (Comunidade Festiva de Bumba-Meu-Boi Brilho de Lucas) espaços de vivência comunitária e experimentos onde, juntamente com as escolas públicas por onde passei, deveremos realizar os estudos para a consecução dos estudos de doutorado.
Antonio Eugenio do Nascimento

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