segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ENEM 2010, VELHAS CANTILENAS.




*Antonio Eugenio do Nascimento

Os jornais de 11 de setembro de 2011 publicaram os resultados analíticos e os gráficos do Enem 2010, trazendo dados esperados e nenhuma novidade, apesar do crescimento do número de alunos. Pressionados pelas instituições que utilizam as suas informações para seleção de novos calouros, não restou também à classe dominante a debandada para os braços do ENEM, algo que, no início de sua edição, trazia consigo o cheiro e as marcas da pobreza.
Neste caso sim, parece ter havido um acentuado branqueamento do instrumento que começou avaliativo, mas ao cair nas graças da burguesia tornou-se seletivo. Os cursinhos que antes preparavam para o vestibular, agora preparam para o ENEM. Mais uma vez os subalternos viram solapar-lhes os instrumentos que poderiam garantir-lhes uma boa educação superior. Usaram o dinheiro público para colocar a classe dominante dentro das melhores universidades com a velha falácia de que as avaliações externas eram para melhorar a escola pública. Mas se isso fosse verdade, por que não aplicaram o dinheiro direto na escola dos mais empobrecidos? Este realmente não é um país sério.
Passadas algumas edições, começaram a aparecer educadores e economistas faladores, representantes da alta burguesia, procurando soluções para o fracasso da educação e os governos indo atrás de suas monótonas cantilenas. Gustavo Ioschpe, por exemplo, propôs que as escolas colocassem uma plaqueta na janela com as notas do Ideb. Já, já vai aparecer outro mais iluminado propondo escrever em letras garrafais a classificação do ENEM e todo mundo vai atrás parecendo uma manada de guinús ingênuos com medo de que os crocodilos lhes devorem os rabos. Pobre país.
Eu, em meus vinte e cinco anos de escola pública, assisti ao aparecimento de várias propostas elaboradas para ajudar aos menos favorecidos, serem incorporadas com incrível velocidade pelas classes A e B, mas no caso do ENEM, jamais imaginei que a coisa se daria com tanta rapidez. Com que facilidade os professores do São Bento, aquela fábrica de meninos tristes, assimilaram o exame e fizeram com que eles se tornassem campeões da jogatina pedagógica? Quando foi que algum educador desse país iria imaginar que a geração omeprazol do Santo Agostinho iria dormir pensando na prova do Enem? Quando foi que os mágicos que pensaram nesta modalidade de exame, ajustaram o teste de avaliação para uma forma classificatória (com pontos de 0 a 1000) colocando-o dentro das exigências das universidades? Precisamos ser mais honestos, isso não foi mera coincidência!
Das cem escolas que chegaram à frente, 97% são particulares e as três que não são também não são públicas. Servem-se do dinheiro público, mas são tão seletivas quanto as confessionais. Somente para exemplificar, a que fica mais perto de nós, o Colégio de Aplicação da UERJ, em tese, se destinaria à mesma clientela, mas os seus professores são melhores remunerados que os seus amigos pobres da rede pública estadual, suas dependências sanitárias não são tão fétidas quanto as das escolas públicas e nenhum de seus equipamentos se compara aos jurássicos mimeógrafos que ainda rodam as provas da meninada de várias escolas que funcionam pelo interior deste estado espoliado pelas mãos sujas de seus governantes.
Ademais, se era para constatar o óbvio para que gastar tanto dinheiro? Não era mais razoável, por exemplo, que deixassem a PUC continuar fazendo os seus exames de seleção? Não serão elas que vão se beneficiar das verbas públicas e particulares? Se da mesma forma, fosse para mais uma vez ficarem reclamando do baixo rendimento dos meninos das escolas públicas, por que não deixaram que as universidades públicas realizassem os seus vestibulares baseando-se no universo social dos seus futuros alunos? Por que não aprimoraram o sistema de cotas se o objetivo era garantir a ascensão social dos menos privilegiados?
Para ser mais objetivo, sequer precisaria que o discurso protetor fosse generalizado. Em alguns lugares isto nem é preciso pelo fato de existir uma pobreza homogeneizada que dispensa a aferição dos que precisam mais de oportunidade do que os outros. Em angra dos Reis é assim. A grande maioria dos alunos que frequenta o posto avançado da UFF é oriunda da rede pública esquartejada. A grande maioria dos que freqüentam os cursos das universidades semipresenciais, também vieram das escolas públicas. Em síntese se era para fazer do ENEM mais um vestibular, para que tanto trabalho? Para que dar oportunidade a tantas empresas golpistas que vivem vendendo provas para os mais espertos? Basta lembrar que, por duas vezes, a polícia federal teve que tomar conta dos tomadores de conta das provas e por outras duas o concurso teve que ser anulado por motivos semelhantes.
Tanto esforço com o dinheiro público para constatar que 96% por cento das escolas públicas não conseguiram atingir a meta mínima desejada e outras que, cansadas de se envergonharem de seus resultados, no ano passado, resolveram não fazer as provas. Existe ainda outro grupo que jamais aparecerá, por terem os seus conceitos caídos na categoria dos impublicáveis.
Tenham paciência companheiros professores universitários, principais idealizadores da nova maracutaia governamental. Todos estão atrás de conhecidos resultados. Talvez fosse mesmo mais fácil investir diretamente na escola pública e, quando sentíssemos que os nossos atletas estivessem em pé de igualdade, chamássemos a burguesia para um amistoso, como se faz no futebol. Ninguém monta um time de garotos e logo de cara convida o Barcelona para um confronto.
Quando nos apresentaram o ENEM eu pensei que era um treino. Cheguei a botar os meus alunos em campo, mas quando abri os olhos já estávamos no campeonato espanhol sem as mínimas condições de atuar na série B do brasileiro. Entramos pressionados no jogo, mas agora não dá para ficarmos pelos cantos reclamando dos pífios desempenhos de nossos atletas. E olhem que eu não pensava somente nos treinos. Achava que os organizadores da proposta fossem mandar calções, camisas, chuteiras, aparelhos para fortalecimento da musculatura de nossos atletas, essas latas de comida que parece farelo para engorda de suínos, médicos, dentistas, alimentação adequada e que aproveitariam a onda das olimpíadas para cobrir as quadras, fazer as raias de atletismo, construir as piscinas para relaxamento e outras necessidades para a formação de atletas de alto rendimento. Nada chegou até nós! Mais uma vez fomos enganados.
Agora, às portas do novo campeonato, quando as escolas federais públicas estão em greve, quando a rede estadual de ensino do Rio de Janeiro acabou de sair da sua jornada de paralisações na luta por melhores condições de vida e trabalho, os aquinhoados do PH, do Santo Agostinho e do São Bento já estão se exercitando para a estréia em uma competição desigual e que não foi pensada para eles. Será que os professores (mestres e doutores) que pensaram o ENEM, em algum momento, acharam que o Cambaúba, O CEAT, o São Bento precisavam de orientação para a formação de seus alunos? Sejam sinceros! Não! O ENEM foi criado para encher o governo de razão e a cada edição reforçar a convicção de que os professores públicos devem ganhar cada vez menos porque eles são muito ruins. O ENEM foi pensado para que os governos tivessem em mãos a defesa que eles precisam para dizer: Estão vendo como essas famílias desestruturadas e agora multifacetadas, não fazem nada para que seus filhos alcancem um patamar melhor. O ENEM foi pensado para que o governo tivesse em mãos um documento para justificar a sua omissão, não dizendo, mas pensando mais ou menos o seguinte: esses meninos que não estudam têm mesmo que freqüentar aqueles banheiros imundos e comer aquela comida fornecida por empresas de qualidade questionável. Uma escola com 2 no IDEB e 400 no ENEM, não merece muita coisa além do que já fornecemos.
Às vezes me ponho a pensar como ficariam as portas das grandes escolas públicas como o tradicionalíssimo Instituto de Educação do Rio de Janeiro, caso o governo federal resolvesse de imediato adotar a proposta do Dr. Ioschpe. Naquelas portas talhadas em peroba portuguesa, seria colocada uma placa imensa mais ou menos com as seguintes informações: MATERNAL 2; JARDIM 2,5; FUNDAMENTAL 1,9; ENSINO MÉDIO 320, cada uma dessas categorias, com as suas notas, espelhando o fracasso construído, em parte, pela roubalheira perene e que de certa forma ainda justifica os salários pomposos da cúpula que cuida da educação. Querem mais? Ainda tem gente por aí achando que o ministro da pasta mais achincalhada do governo central (e que deve receber o maior salário de nossa categoria), será o nosso futuro presidente da república. Deus tenha pena de nós!

*Professor da rede pública, mestre em educação pela UFF e autor , dentre outros, do livro A escola do aluno caminhador.

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