Era um triste dia de incêndio na floresta. Os bichos apavorados, cada um dentro de seus limites, lutavam para apagar o fogaréu que a tudo destruía, dentre eles o beija-flor a semear gotículas d’ água que mal chegavam a atingir as labaredas. O macaco que a tudo observava, ironicamente, perguntou à pequena ave: Você acha que o seu trabalho servirá de alguma coisa? O beija-flor prontamente respondeu: Como todos, sempre que ocorre uma tragédia desse porte, eu também tenho dúvidas, mas estou fazendo a minha parte.
Fábulas do Imaginário Universal
Quando eu ainda estava na pré-adolescência, costumava visitar a um Tio bondoso que morava no conflituoso bairro de Vigário Geral, subúrbio do Rio de Janeiro, região onde passei os primeiros anos de minha vida. A cada seis meses, minha mãe adotiva pedia para que eu passasse um dia com ele e eu adorava. Ficávamos o tempo todo para lá e para cá. Ele em seus afazeres para manter limpo o quintal da casa e eu comendo as frutas de seu bem cuidado pomar.
A aposentadoria precoce permitia-lhe vivenciar esses prazeres. Às doze horas em ponto, almoçávamos juntos, sempre o mesmo cardápio: Feijão, arroz, jiló e a carne ensopada mais gostosa do mundo feita por minha Tia Luiza, que só almoçava depois que levantávamos da mesa. Era como se eu fosse um hóspede a negócios e ela uma serviçal doméstica orientada para não interferir nas conversas entre meu tio e os homens que visitavam o casal. Comigo, apesar da tenra idade, ela procedia da mesma forma. Ao final da tarde tomávamos café, meu tio me dava sempre algum dinheiro para o transporte e lá ia eu feliz por mais aquele dia.
Nesses encontros, o trabalho que mais via meu Tio fazer era enterrar lixo e transportar outros materiais de um lado para outro numa interminável tarefa que lhe deixava exausto ao cair da tarde. Certo dia, depois de comer bastante seriguelas, perguntei-lhe por que fazia aquilo, no que ele me respondeu: Cada um devia cuidar do lixo que produz, por isso não jogo nada fora. Isso mesmo: nem os excrementos iam para a vala. Tudo era processado ali, naquele imenso quintal. Nunca mais me esqueci das palavras de Maximiniano, um Tio quase correto em se tratando de consciência ecológica.
O Velho era de pouca conversa e gestos muito simples, mas foi dele que recebi as primeiras lições assistemáticas de proteção ao meio ambiente. Afora os passarinhos que criava em gaiolas, eu achava o meu tio Maximiniano o máximo. Foi, também, com ele que comecei a gostar das coisas que os outros jogam fora. Primeiro os carrinhos, os brinquedos quebrados, depois, na adolescência quando começava a desejar o ofício de pintor, as chapas de compensado e mais tarde, já profissionalizado em velharias, o hábito de pegar, nas ruas e calçadas, móveis quebrados para restaurar.
Já professor, comecei a utilizar os bons pedaços de compensado que encontrava para fazer tabuleiros de jogos para as crianças das escolas onde trabalhava. Mais recentemente, percebi que as coisas já não cabiam no apartamento de Vila Isabel e aluguei uma casa no subúrbio de Acari, para que o projeto pudesse dar um salto de qualidade. Com isto me tornei auto-suficiente em madeiras beneficiadas e hoje toda a madeira que utilizo vem das ruas, dos inúmeros móveis velhos que recolhi, antes que eles acabassem em um aterro sanitário qualquer. Não sei dizer quantas árvores foram salvas, mas percebo que toda a minha família já está aprendendo a não comprar móveis novos. Tudo que precisamos para casa e necessita de madeira para ser executado, é recolhido no grande depósito de Acari.
O que estamos vendo nessas fotos é uma pequena parte do que até agora conseguimos produzir com um maquinário rudimentar. São jogos de tabuleiro, difusores para estúdios de som, desenhos, pinturas, cavaletes para atelier, cadeiras para varandas, cadeiras para crianças, móveis para escolas, cômodas, mesas de jantar e de centro e outras coisas que agora me fogem à lembrança.
Estamos agora procurando um caminho para o desaguamento dessa produção, mas ainda esbarramos no custo. Fica, portanto, o nosso prazer ainda restrito à preservação da flora e à limpeza do meio ambiente, isto porque os artefatos oriundos de qualquer ação de reciclagem, ainda são mais caros do que aqueles feitos com materiais novos. O reprocessamento tem um custo muito alto devido ao número maior de fases de execução, uma delas e a mais demorada é a limpeza e o preparo do material encontrado nas ruas, muitas vezes já em estágio de deterioração e cheio de pregos. Esses fatos justificam a nossa opção pelas doações. Tudo que fizemos até agora foi presenteado. Numa primeira fase o nosso objetivo é o desenvolvimento de novas consciências consumidoras dos descartados do amanhã.
Outra questão, diz respeito ao hábito desenvolvido pelas sociedades modernas de consumir em excesso aquilo que é totalmente novo. O mobiliário das salas dos setores médios da sociedade precisa ter o brilho das Casas Bahia, bom acabamento e provocar impacto visual, atributos que muitas vezes são priorizados em detrimento da funcionalidade.
Essas práticas estão arraigadas aos costumes dos setores dominados pela pequena burguesia e somente mudará quando a pessoa que adquirir um móvel feito com entulhos que boiavam nas águas de um rio, souber que, além da peça recuperada, ela também estará assumindo a defesa de uma causa justa e ecologicamente correta. Somente para lembrar: Os europeus, com a arrogância daqueles que pensam que a tudo sabem, devastaram, em quinze séculos, praticamente todas as suas florestas nativas.
É por isso que, nas terras do Velho Mundo, quase todas as árvores plantadas nos jardins públicos se parecem com bichos empalhados. Por aqui, as coisas também começam a ficar complicadas. Quem hoje viaja pelas rodovias que cortam o Estado do Espírito Santo, já pode notar que as nossas florestas de eucalipto estão ficando um tanto parecidas com as florestas uniformemente replantadas da Europa Central. Seria bom que aprendêssemos com os erros alheios.
Mas se ainda assim o(a) leitor(a) estiver encontrando dificuldade para se convencer da necessidade de formação dessa nova consciência, tenha paciência com as coisas que você está pensando em jogar fora. Somente o fato de você demorar um pouco mais a se desfazer de sua cômoda velha, já contribui para a redução da derrubada de árvores de nossa flora. Outra opção torna-o(a) ainda mais engajado(a) e generoso(a): Ao se desfazer do móvel velho que o (a) incomoda oferte-o para alguém que, como eu, possui uma queda especial por coisas do passado. Com este gesto o cidadão ou a cidadã já pode solicitar a ficha de inscrição e entrar para o quadro dos trepidantes agentes do Greenpeace que luta pela preservação das florestas do mundo.



Além de simpatizante dos trabalhos do Antônio Eugênio, eu também sou colaborador, pois sempre tenho umas madeiras de refugo de obras para fornecer-lhe como matéria-prima para novas inspirações.
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