domingo, 21 de fevereiro de 2010

Em frente à minha janela tem uma árvore








Muito grande e frondosa é a árvore existente à frente do prédio em que moro, há bem pouco tempo, num pedaço tranquilo de Vila Isabel. Caso não esteja muito enganado, trata-se de um pé de cedro cujas folhas adentram pela janela do quarto que fizemos de escritório. Vemos nessa grande árvore (exageradamente podada em dias recentes) o centro de um ecossistema muito rico. Do parapeito de minha varanda, fiz uma lista dos espécimes que a habitam ou que a visitam ou que de alguma forma precisam dela para sua sobrevivência. Afora as formigas que estão em todos os lugares, pude contar: dois casais de bem-te-vis que vivem no mesmo ninho ou moram em casa geminada, um casal visitante de sabiás, um número imprevisível de maritacas, um pequeno casal de caga-sebos, pardais, rolinhas, garrinchas, incontáveis cigarras, morcegos e se considerarmos que todos eles consomem algo quando estão a desfrutar da bela casa, o cardápio de insetos deve ser bem variado.



Confesso que somente a sombra que ela faz em minha defesa e o canto do casal de sabiás, já seriam suficientes para que os homens que, a serviço do estado, cortam ou podam as árvores tivessem um pouquinho mais de sensibilidade ao fazer o que eles mesmos chamam de poda regular. Por algumas vezes lhes falei sobre a violência que empregam na poda, como se naquela residência verdejante não vivessem outras vidas, mas eles retrucaram dizendo que já saiam de seus locais de trabalho com a tarefa pré-determinada. O que eles queriam dizer com isso é que, quase sempre, para os bairros da zona norte e subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, a recomendação é poda radical. Mais uma vez justificam o ato vil dizendo que a rede aérea de iluminação assim a exige. Tem ainda a queda dos galhos sobre os carros, as reclamações dos preguiçosos que não gostam de varrer as calçadas, o entupimento das redes de águas pluviais...

Como podemos ver são tantas as justificativas que ficamos sem argumentos diante de outros tantos sustentados pela legalidade. Quando finalmente desistimos do combate ideológico, entra a moto-serra e deixa um toco cinzento e triste no lugar do que antes era uma árvore à espera de seus moradores e do desesperado encontro com a residência devastada.

Sofremos todos com a insensibilidade de homens e mulheres. Em contrapartida a natureza vem respondendo à altura procurando reequilibrar-se utilizando sensores que indicam o que precisa ser feito para curar os atos insanos, mas nem sempre as coisas funcionam como desejamos. As tragédias ocorrem por causa das falhas nos instrumentos de controle (imperfeitos e rudimentares) da natureza na tentativa de reparar os erros intencionais praticados por homens e mulheres.

A população de São Paulo, por exemplo, vive a reclamar das chuvas que a tudo alagam, mas se esquece de que alguma coisa resfriadora precisava entrar no lugar da tradicional garoa destruída pela ganância das grandes corporações industriais e imobiliárias. Todo mundo em São Paulo sonha com o impossível: trabalhar ou morar na Avenida Paulista ou em seus arredores.

Sabemos também que as nuvens carregadas de água não despejam o precioso líquido em qualquer lugar. Cada carneirinho que se desloca sai perguntando onde está mais quente para que a água seja despejada no lugar certo. Como quase sempre as maiores temperaturas acontecem nas áreas mais povoadas as chuvas acabam caindo de forma concentrada sobre as cabeças dos mais empobrecidos que nada fizeram para receber tamanho castigo.



Noutro dia estava a passar uma matéria sobre aumento de temperatura e quase não acreditei no que li. Uma bióloga dizia que uma árvore, somente uma, reduz em até três graus a temperatura em seu entorno. Como se tratava de um tema que a mim interessa, comecei a observar o comportamento das pessoas em dias quentes. Elas se aglomeram instintivamente à sombra das pequenas árvores apedrejadas cotidianamente pela própria população. Tem exceções, mas o número de predadores ainda é infinitamente maior do que aqueles que às protegem. Eu mesmo tenho uma casa no subúrbio cheia de árvores que me dão um trabalho danado para que as pessoas, algumas do círculo familiar, não as destruam. Preocupo-me porque também sou vítima. A natureza não tem cadastro de SPC para somente punir aqueles que lhe fazem mal.

Em dias recentes, várias pessoas, no município de Angra dos Reis, pagaram pelos erros dos poderes estadual e municipal. No afã de cobrar a conta geral aos que venderam as licenças ambientais na Baía da Ilha Grande, a quase infalível justiça divina acabou tirando a vida também dos ricos e pobres que estavam por perto. Quase quarenta pessoas pagaram uma conta que a outros era destinada.

Foto Wilton Júnior - WEB

Além da sombra que lambe minha janela e do gorjeio dos pássaros que acalantam minhas tardes e manhãs, não estou individualmente cobrando muitas coisas. Mais precisamente, acho que os podadores mandados precisam de cursos regulares sobre o trato com o meio ambiente, mas não somente sobre aquelas coisas técnicas que todos acham que devem aprender para que se tornem exímios mãos-de-tesouras. Falo dos signos da arte, das aulas de expressão corporal, das dinâmicas de grupo e de outras dezenas de ferramentas capazes de dar a homens e mulheres a redundante, mas não indispensável condição de humanidade.

Caulos, grande humorista, autor de Vida de Passarinho e um dos primeiros a preocupar-se com a questão ambiental, certa vez fez um desenho muito bonito que falava da tristeza de um passarinho ao voltar para seu ninho e encontrar apenas o cepo da árvore que, àquela altura, já boiava em um rio qualquer. Coisas simples como essa precisam fazer parte dos conteúdos curriculares dos podadores de árvores para que possam sempre lembrar-se de que ao cortar exageradamente os galhos de nossas árvores, além de acabarem com o meu refúgio térmico, deixam ao léu centenas de pequenos seres que lá construíram suas casas acreditando na vigilância perpétua da natureza.

Com essas bondades práticas não estamos livres da ira, mas nos aproximamos dos deuses e podemos dormir tranquilos na certeza de que se algo vier a dar errado, não terá sido por fruto de nossa omissão.

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