Passados 30 anos, desde o dia em que pus os pés em minha primeira escola pública, na condição de professor, a força das reminiscências, volta e meia, empurra-me para o registro de fatos e rotinas que não sofreram modificações substanciais capazes de contribuir para a decantada melhoria exigida pelas populações mais empobrecidas desse País. E não estamos falando de novas reivindicações. A maioria delas já constava das pautas dos Pioneiros da Educação desde a primeira metade do século XX. É evidente que, por conta dos avanços da ciência e da tecnologia, aos conteúdos foram agregados novos valores, mas, em essência, tratamos, ainda hoje, dos mesmos objetos de desejo pedagógicos que estavam na ordem do dia dos Pioneiros.
O Cinco de Junho é uma ferramenta adicional para divulgação do trabalho que realizo com crianças e adolescentes tendo em vista a atenuação dos desejos de consumo que nos impelem, frequentemente, a trocar o velho pelo novo causando sensíveis prejuízos ao meio ambiente, notadamente quando a ação é direcionada à flora e à fauna. Este espaço servirá também para agregar os textos originados de nossas conversas sobre o cotidiano da escola pública e suas afinidades.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O PAPEL DA ESCOLA SEM PAPEL
Passados 30 anos, desde o dia em que pus os pés em minha primeira escola pública, na condição de professor, a força das reminiscências, volta e meia, empurra-me para o registro de fatos e rotinas que não sofreram modificações substanciais capazes de contribuir para a decantada melhoria exigida pelas populações mais empobrecidas desse País. E não estamos falando de novas reivindicações. A maioria delas já constava das pautas dos Pioneiros da Educação desde a primeira metade do século XX. É evidente que, por conta dos avanços da ciência e da tecnologia, aos conteúdos foram agregados novos valores, mas, em essência, tratamos, ainda hoje, dos mesmos objetos de desejo pedagógicos que estavam na ordem do dia dos Pioneiros.
domingo, 21 de março de 2010
EURECA, EUREKA, HEURECA!

Sócrates
AS CONTRIBUIÇÕES DA HEURÍSTICA
...Em primeiro lugar, estou convencido de que a terra, sendo redonda e estando colocada no centro da abóbada celeste, não precisa nem do ar nem de qualquer outra matéria para não cair. Ao contrário a uniformidade existente em cada parte do céu, dum lado, e, de outro o próprio equilíbrio da terra são suficientes para sustentá-la...
Sócrates falando a Símias (Fédon – Platão).
Como acabamos de ver, a confirmação da esfericidade da terra por Galileu no século XVI, já era apontada pela filosofia e pelos postulados científicos que lentamente se construíam, pelo menos, desde o século quinto antes de Cristo. Sem nenhum demérito para o feito do cientista que quase perde a vida na fogueira, antes deles inúmeras pessoas já desconfiavam da tese sustentada pela igreja de que a terra era plana e estava posta no centro do universo.
No mesmo trecho desses diálogos, Símias ouve de Sócrates a sua justificativa para o que mais adiante viria a ser chamada de força da gravidade; Em segundo lugar – disse Sócrates – me convenci de que a terra é muito grande e que moramos numa pequena parte dela (uma parte plana em torno dos mares) assim como formigas e rãs que vivem em torno dum paul. Mais adiante o mestre conclui: Nós moramos em cavidades. Esta justificativa talvez tenha sido elaborada para, antecipadamente, responder à pergunta que chegou até os nossos dias gerando a mesma desconfiança: Mas, se a terra é redonda, por que é que a gente não cai?
Tais argumentações, muito parecidas com as que ouvimos das crianças nos dias atuais, fizeram com que homens e mulheres chegassem ao atual estágio de conhecimento, colocando a dificuldade de suas realizações no limite do pensamento. Há mais de cinqüenta anos, quando começaram a surgir, para espanto dos leigos, os primeiros circuitos integrados, a eletrônica e a cibernética estavam dizendo que tudo que o homem pensasse poderia ser colocado dentro de um chip conversador.
Hoje, próximos da virada da primeira década do novo milênio, a nanociência nos afronta e nos coloca em constantes sobressaltos porque já não conseguimos sequer imaginar onde tudo isso vai parar. Os espaços físicos virtualmente navegáveis, à medida que vemos potencializada a sua capacidade de operação, ficam cada vez mais diminutos. Da mesma forma, encurtam-se as distâncias reais de tal modo que, sem exagero algum, já podemos pensar no dia em que o tempo das viagens será reduzido a números muito próximos daquilo que chamamos de instante. Em um instante estaremos de volta!
Uma parte desse assombroso nível de conhecimento deve-se ao pensamento heurístico moldado na seiva da curiosidade e de certa forma impulsionado pela ficção, companheira inseparável das almas arquimedianas que se recusam a admitir a derrota diante dos enigmas que homem e natureza foram construindo ao longo dos tempos (ora para o nosso deleite, ora para a nossa desgraça). E foram tantas perguntas e foram tantas respostas, que aprendemos a lidar com a surpresa e a estudar cada problema como se, para sua solução, não existissem modelos.
Neste artigo, colocamos à disposição dos leitores alguns problemas cuja solução, quase sempre, independe das fórmulas tradicionais para que os mesmos sejam resolvidos. Neste sentido, o melhor caminho é prestar atenção no enunciado. São problemas que foram construídos, em grande parte, pela imaginação popular. Referem-se ao conhecimento heurístico do número, por isso nem sempre suas respostas podem ser encontradas na lógica das convenções que respalda as operações formais.
Somente para lembrar, o vocábulo heurística tem a mesma origem etimológica de (h)eureka, a célebre palavra grega esbravejada por Arquimedes ao descobrir a solução para o problema do roubo de ouro da coroa do rei. Heurística é a arte do descobrimento, cujo termo foi popularizado pelo matemático húngaro George Pólya (1887-1985) em sua obra How to solve it. Pólya escreveu esse livro para expor sua metodologia de facilitação na resolução de problemas. Além da paixão pela matemática Pólya tinha interesses em assuntos relacionados com psicologia da indução e ciências da natureza.
SOBRE 10 PRIMEIRAS QUESTÕES
Foram poucas as questões que não encontramos em mais de uma obra, com o mesmo enunciado ou com pequenas modificações em função da região em que elas foram produzidas. Quase sempre o que muda são os nomes dos atores. Somente para exemplificar, o interessante problema da lesma que sobe as paredes do poço, foi encontrado em pelo menos 10 livros, alguns mudando apenas o nome do bicho.
Portanto, ficou para nós foi a impressão de que seja muito antiga a gênese desses problemas. Este fato nos fez optar por não citar a fonte, nem a autoria. De qualquer forma, mais uma vez agradecemos aos colaboradores a possibilidade de acesso aos temas propostos com o objetivo de aguçar a imaginação da meninada. Nada mais fiel para representar a natureza do conhecimento heurístico matemático, sobre o qual procuramos discorrer neste capítulo. Vamos aos trabalhos.
1. Amarildo vendeu duas televisões por R$1000 reais cada uma. Na primeira venda ele teve prejuízo de 30% na segunda teve um lucro de 30%. Você acha que ele teve lucro ou prejuízo?
2. Se fossem duas horas mais tarde, faltaria para a meia-noite a metade do que faltaria se fosse uma hora mais tarde. Que horas são?
3. Alguns meses do ano têm 31 dias. Quantos meses têm 28?
4. Quantos noves existem entre 0 e 100?
5. Um garrafão contém um casal de insetos. Esses insetos reproduzem-se e o seu número dobra todos os dias. Em 50 dias o garrafão está cheio. Em que dia o garrafão esteve pela metade?
6. Que altura tem Isabel que é 2m menor que uma árvore de altura igual ao triplo da altura dessa criança?
7. Temos 4 correntes de 3 elos cada uma. Queremos unir as quatro para formar uma corrente fechada. Para abrir um elo pagamos 30 reais e para fechar 40. Quanto custará essa operação?
8. Uma lesma deve subir em um poste de 20m de altura. Durante o dia sobe 4m e de noite desce 2m. Em quantos dias atingirá o topo do poste?
9. Um homem foi de Lisboa a Belém e levava dinheiro, não sabemos quanto. Na venda de Santos dobrou o dinheiro que levava e gastou 10. Em Alcântara dobrou o dinheiro que sobrou de Santos e gastou 10. Em Belém dobrou o dinheiro que sobrou de Alcântara e gastou 12. Neste local sobravam-lhe apenas 3. Quanto dinheiro levava este homem quando saiu a caminhar?
10. Um senhor de idade, perto da morte, escreveu o seguinte testamento: deixo 1/3 da minha fortuna para minha filha única e o restante para a criança que ela está esperando, se for homem. Deixo ½ da minha fortuna para minha filha única e o restante para a criança que ela está esperando se for mulher. Após a sua morte nascem gêmeos: um casal. Como deve ser dividida a fortuna?
domingo, 28 de fevereiro de 2010
PORQUE BRINCAMOS TANTO
a linha é tão fácil de arranjar,
venha aqui venha escolher
papagaio de toda cor...
O ato de brincar faz parte da natureza animal. Somos (homens, mulheres, borboletas, cavalos, andorinhas, cães e gatos) componentes de um reino de natureza animada, qualidade que nos distingue de vegetais e minerais. Os vegetais têm um ciclo de existência parecido com o nosso (nascem, crescem e morrem), mas não produzem movimentos espontâneos e/ou inteligentes nem apresentam indícios de que possuam sentidos capazes de estabelecer com o meio circundante diálogos que expressem tristeza, dor, prazer ou alegria. Todos os outros elementos existentes na grande aldeia são minerais: seres inertes em mórbido estado de espera do inexorável encontro, com aqueles que um dia tiveram vida: As árvores, os passarinhos, os comerciantes e nós.
Desta forma, podemos tomar o movimento (animação) como a principal característica do reino ao qual pertencemos e consequentemente das espécies às quais estamos biologicamente ligados (as) por semelhança física, orgânica e reprodutiva. No entanto, cessam, com o sopro da vida, as visíveis e científicas aproximações entre humanos e o conjunto totalizante dos seres irracionais. Isto porque, homens e mulheres são animados (as) e intelectuais; brincam, pensam e trabalham. E quando trabalhamos empreendemos um tipo de ação que nos transforma em seres singulares, únicos habilitados pela natureza à produção cultural.
No princípio era o movimento...
...depois vieram, além dos dias e das noites e não exatamente nesta ordem, o amor, a comida, o brinquedo e o trabalho. Somos brincantes e trabalhadores permanentemente desconfiados da veracidade da afirmação bíblica de que a luta pela sobrevivência é uma criação divina à guisa de castigo pelo ato sexual não consentido e simbolicamente representado pela célebre história da comida indevida da maçã.
Exageros, pilhérias e falhas à parte, o que está implícito nessa passagem cristã, é a natural vocação de homens e mulheres para o prazer, o fazer e o brincar. Este fato nos leva a crer que o simbolismo da ordem de expulsão de Adão e Eva do paraíso, pudesse ser resumido na seguinte frase: Ide! Amai, fazei e brincai!
Esta é a trinca verbal que nos unifica e ao mesmo tempo faz com que desconfiemos das pessoas que não amam, não brincam e não trabalham. A ausência de desejo para a consecução dessas três ações é objeto de inúmeros ensaios psicanalíticos e causa em nós, estranhamento diante dos anômalos (quase mortos) que consideramos passíveis de tratamento e, de certa forma, perigosos para a vida em grupo.
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente do pé
Estudos biológicos e psicanalíticos recentes, sobre o comportamento humano, indicam que a necessidade de procriar, brincar e produzir, síntese das ações expressas no período anterior, vem impressa em nosso mapa genético da mesma forma que os pássaros trazem no organismo a forma de seus ninhos. Ao DNA do João-de-Barro, por exemplo, já vem acoplada a receita para a construção de sua casa e a lista dos materiais que ele terá de transportar para o espaço que servirá tanto para o início da vida de seus filhos, quanto para o aprisionamento involuntário, que, quase sempre, leva à morte a sua inestimável companheira. Já em nossa escada helicoidal, além de milhões e milhões de outras coisas, está escrito em letras garrafais: A ordem é brincar!
Tais constatações nos levam à crença de que o diferencial maior somente torna-se visível quando nos capacitamos, entre brincadeiras e ofícios, para o empreendimento de melhorias no espaço vital (o habitat). Esses acontecimentos devem-se em grande parte à generosidade da natureza, principal responsável pelo sucesso de nosso mais belo salto ao patamar em que hoje nos encontramos: Societariamente organizados para o consumo e para o prazer que advém da produção material (trabalho) e da fantasia (jogo e brinquedo) que garantem a saúde física e social das coletividades.
Dia de festa no Boi Brilho de Lucas
Por tais razões, e por várias outras não tratadas neste trabalho, se mantêm atuais as considerações de Freire sobre o afeto, de Bakhtin sobre a natureza da festa e de Vygotsky sobre a relevância do jogo da fantasia; como instrumentos propiciadores da felicidade coletiva. Ao incorporarmos, à nossa visão pedagógica, a premissa de que a saúde da mente implica em saúde do corpo, é nosso dever, na qualidade de educadores, contribuir para que os espaços ampliadores dos saberes também se empenhem na construção de formas mais prazerosas de construção do conhecimento que se apresentam, tanto nos exercícios primários que advém de nosso espírito lúdico quanto nas variadas formas de trabalho que se distanciam da tortura, curam, emancipam e libertam.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
DECIFRA-ME OU TE DEVORO
UM TRABALHO DE EQUIPE
Madeira de Rua
Estúdio Nascimento
Editora De Petrus
Alunos da EM Profa. Cleuza Jordão.
Conta uma das centenas de lendas gregas, que, na entrada da Cidade de Tebas havia uma esfinge, dentre todas que conhecemos, a mais violenta e audaciosa. O terrível animal tinha asas imensas, corpo de leão, cabeça de falcão ou de mulher e inteligência humana. Foi esta a descrição que mais ouvimos em nossos tempos de escola, mas não fiquem intrigados se vocês têm outra versão para contar. A definição da estrutura física deste ser assustador varia de acordo com os conhecimentos e interesses de cada contador de histórias.
O que há de comum entre todos os informantes é o fato de que a sua principal missão era aterrorizar as pessoas que se dirigiam à cidade. Dizem ainda que, para se fingir de boazinha, a bicha dava uma chance ao interpelado pronunciando uma frase que ficou muito famosa: Decifra-me ou te devoro! Assim mesmo com o pronome no meio da frase.
Ato seguinte, ela fazia ao quase devorado a seguinte pergunta: Qual é o animal que pela manhã anda com quatro pernas, ao meio do dia com duas e ao anoitecer com três? Como se tratava de um enigma construído pela própria esfinge, ninguém conseguia decifrá-lo e todos acabavam sendo engolidos naquele mesmo lugar.
Certo dia, porém, depois de assassinar seu pai e em vias de casar-se com a própria mãe, Édipo encontrou-se com a esfinge que, esfomeada, foi logo fazendo a ele a mesma pergunta. Quando a engraçadinha já estava prestes a comer o grande herói, ele disse: É o homem! Pois na infância andamos com quatro pés, na juventude com dois e na velhice com três (duas pernas e uma bengala). Perplexa e desesperada, a esfinge projetou-se sobre as pedras pontiagudas de um profundo abismo, pondo fim ao terrível pesadelo para aqueles que visitavam a mitológica cidade.
Sabemos que este desafio é apenas um dos milhares que a humanidade construiu para aguçar a curiosidade geral. No entanto, temos a sensação de que ele foi o que mais provocou a fértil imaginação da civilização ocidental. Todas as brincadeiras de perguntas, todos os enigmas que são construídos pelos mais velhos para movimentar a mente da garotada, têm o propósito de chamar o indivíduo a refletir sobre temas de nosso cotidiano, podendo inclusive ajudá-lo na solução dos problemas que seguir-lhe-ão atormentando pela vida afora.
Para este trabalho, além dos inúmeros jogos que elaboramos, selecionamos de várias publicações constantes da bibliografia in fine questões simples destinadas à meninada que freqüenta os bancos da escola de ensino fundamental. Por outro lado sabemos que elas também servirão para o deleite dos mais velhos que não suportam ver uma revistinha de passatempo, sem debruçar-se sobre ela até devorá-la, até chegar a uma solução que satisfaça, não somente às questões propostas pelo veículo lúdico, como também às suas próprias interrogações. Portanto, sinta-se desafiado, divirta-se, ensine, aprenda!
É importante dizer também que não somos professores de matemática, apenas gostamos muito de jogos e aprendemos com Piaget, Ferrero, Kamii, Freinet... a utilizá-los como instrumentos que podem, e muito, contribuir para o desenvolvimento da inteligência. Por isso, somente apresentamos, neste trabalho, os exercícios que conseguimos resolver nos inúmeros livros, revistas, olimpíadas, testes e provas consultados para montagem desta obra. Alguns jogos foram utilizados na sua forma original, outros (já pedindo desculpas aos seus formuladores) foram modificados para facilitar a compreensão da meninada de ensino fundamental. Isto, a nosso ver, faz com que a criança se defronte com as mesmas possibilidades de errar e acertar e, desta forma, sinta-se permanentemente estimulada a prosseguir pelos saudáveis caminhos do jogo.
Desde já, agradecemos a todos (educadores ou simpatizantes) que, mesmo sem saber, contribuíram para a socialização das informações constantes deste projeto e esperamos que todos possam nos felicitar comparecendo ao lançamento do livro Decifra-me ou te devoro (carregadinho de jogos e enigmas) previsto para fins de março de 2010.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A ESTÉTICA DO DESCARTÁVEL NO SÉCULO XX
No entanto, o assunto sobre o qual desejo discorrer neste artigo, vai um pouco além da relação homem-meio com o objetivo de preservação da vida de ambos. Podemos dizer, sem medo de cometer erros, que em nenhum momento de nossa história a sociedade produziu formas tão interessantes para que sejam descartadas logo após o uso do produto conteúdo ou da própria peça quando ela já não servir ao fim para o qual a mesma foi concebida. A razão dessa beleza que enche as ruas está no desenho dos objetos, já que a quase totalidade dos produtos industrializados do século vinte passou por alguma forma de projeto antes de sua modelação. Coisas simples como uma garrafinha de refrigerante exigiram esforços para que o seu desenho contribuísse para o aumento dos lucros de uma determinada marca. O que hoje vai para o lixo é parte dessa elaboração e, por sua beleza, adaptar-se-á, sem muita dificuldade, a outra obra de natureza decorativa ou utilitária.
Garrafas de Coca-Cola - Imagem WEB
Com tanta beleza jogada fora, era muito natural que surgisse uma legião de artistas colecionadores, dentre os quais eu me incluo, dispostos a não deixar que se apague de todo a memória de nossos pais de profissão. Além dos móveis salvos do caminhão do lixo, vamos recuperando objetos e guardando outros que, por trazerem as marcas de seu tempo, vão para a parede do jeito em que foram encontrados pelas ruas, obviamente depois de um bom banho de inseticidas e de rigorosa assepsia hospitalar. Salve o velho objeto, salve a história do desenho!
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
E SE CADA UM CUIDASSE DO SEU LIXO...
Era um triste dia de incêndio na floresta. Os bichos apavorados, cada um dentro de seus limites, lutavam para apagar o fogaréu que a tudo destruía, dentre eles o beija-flor a semear gotículas d’ água que mal chegavam a atingir as labaredas. O macaco que a tudo observava, ironicamente, perguntou à pequena ave: Você acha que o seu trabalho servirá de alguma coisa? O beija-flor prontamente respondeu: Como todos, sempre que ocorre uma tragédia desse porte, eu também tenho dúvidas, mas estou fazendo a minha parte.
Fábulas do Imaginário Universal
Quando eu ainda estava na pré-adolescência, costumava visitar a um Tio bondoso que morava no conflituoso bairro de Vigário Geral, subúrbio do Rio de Janeiro, região onde passei os primeiros anos de minha vida. A cada seis meses, minha mãe adotiva pedia para que eu passasse um dia com ele e eu adorava. Ficávamos o tempo todo para lá e para cá. Ele em seus afazeres para manter limpo o quintal da casa e eu comendo as frutas de seu bem cuidado pomar.
A aposentadoria precoce permitia-lhe vivenciar esses prazeres. Às doze horas em ponto, almoçávamos juntos, sempre o mesmo cardápio: Feijão, arroz, jiló e a carne ensopada mais gostosa do mundo feita por minha Tia Luiza, que só almoçava depois que levantávamos da mesa. Era como se eu fosse um hóspede a negócios e ela uma serviçal doméstica orientada para não interferir nas conversas entre meu tio e os homens que visitavam o casal. Comigo, apesar da tenra idade, ela procedia da mesma forma. Ao final da tarde tomávamos café, meu tio me dava sempre algum dinheiro para o transporte e lá ia eu feliz por mais aquele dia.
Nesses encontros, o trabalho que mais via meu Tio fazer era enterrar lixo e transportar outros materiais de um lado para outro numa interminável tarefa que lhe deixava exausto ao cair da tarde. Certo dia, depois de comer bastante seriguelas, perguntei-lhe por que fazia aquilo, no que ele me respondeu: Cada um devia cuidar do lixo que produz, por isso não jogo nada fora. Isso mesmo: nem os excrementos iam para a vala. Tudo era processado ali, naquele imenso quintal. Nunca mais me esqueci das palavras de Maximiniano, um Tio quase correto em se tratando de consciência ecológica.
O Velho era de pouca conversa e gestos muito simples, mas foi dele que recebi as primeiras lições assistemáticas de proteção ao meio ambiente. Afora os passarinhos que criava em gaiolas, eu achava o meu tio Maximiniano o máximo. Foi, também, com ele que comecei a gostar das coisas que os outros jogam fora. Primeiro os carrinhos, os brinquedos quebrados, depois, na adolescência quando começava a desejar o ofício de pintor, as chapas de compensado e mais tarde, já profissionalizado em velharias, o hábito de pegar, nas ruas e calçadas, móveis quebrados para restaurar.
Já professor, comecei a utilizar os bons pedaços de compensado que encontrava para fazer tabuleiros de jogos para as crianças das escolas onde trabalhava. Mais recentemente, percebi que as coisas já não cabiam no apartamento de Vila Isabel e aluguei uma casa no subúrbio de Acari, para que o projeto pudesse dar um salto de qualidade. Com isto me tornei auto-suficiente em madeiras beneficiadas e hoje toda a madeira que utilizo vem das ruas, dos inúmeros móveis velhos que recolhi, antes que eles acabassem em um aterro sanitário qualquer. Não sei dizer quantas árvores foram salvas, mas percebo que toda a minha família já está aprendendo a não comprar móveis novos. Tudo que precisamos para casa e necessita de madeira para ser executado, é recolhido no grande depósito de Acari.
O que estamos vendo nessas fotos é uma pequena parte do que até agora conseguimos produzir com um maquinário rudimentar. São jogos de tabuleiro, difusores para estúdios de som, desenhos, pinturas, cavaletes para atelier, cadeiras para varandas, cadeiras para crianças, móveis para escolas, cômodas, mesas de jantar e de centro e outras coisas que agora me fogem à lembrança.
Estamos agora procurando um caminho para o desaguamento dessa produção, mas ainda esbarramos no custo. Fica, portanto, o nosso prazer ainda restrito à preservação da flora e à limpeza do meio ambiente, isto porque os artefatos oriundos de qualquer ação de reciclagem, ainda são mais caros do que aqueles feitos com materiais novos. O reprocessamento tem um custo muito alto devido ao número maior de fases de execução, uma delas e a mais demorada é a limpeza e o preparo do material encontrado nas ruas, muitas vezes já em estágio de deterioração e cheio de pregos. Esses fatos justificam a nossa opção pelas doações. Tudo que fizemos até agora foi presenteado. Numa primeira fase o nosso objetivo é o desenvolvimento de novas consciências consumidoras dos descartados do amanhã.
Outra questão, diz respeito ao hábito desenvolvido pelas sociedades modernas de consumir em excesso aquilo que é totalmente novo. O mobiliário das salas dos setores médios da sociedade precisa ter o brilho das Casas Bahia, bom acabamento e provocar impacto visual, atributos que muitas vezes são priorizados em detrimento da funcionalidade.
Essas práticas estão arraigadas aos costumes dos setores dominados pela pequena burguesia e somente mudará quando a pessoa que adquirir um móvel feito com entulhos que boiavam nas águas de um rio, souber que, além da peça recuperada, ela também estará assumindo a defesa de uma causa justa e ecologicamente correta. Somente para lembrar: Os europeus, com a arrogância daqueles que pensam que a tudo sabem, devastaram, em quinze séculos, praticamente todas as suas florestas nativas.
É por isso que, nas terras do Velho Mundo, quase todas as árvores plantadas nos jardins públicos se parecem com bichos empalhados. Por aqui, as coisas também começam a ficar complicadas. Quem hoje viaja pelas rodovias que cortam o Estado do Espírito Santo, já pode notar que as nossas florestas de eucalipto estão ficando um tanto parecidas com as florestas uniformemente replantadas da Europa Central. Seria bom que aprendêssemos com os erros alheios.
Mas se ainda assim o(a) leitor(a) estiver encontrando dificuldade para se convencer da necessidade de formação dessa nova consciência, tenha paciência com as coisas que você está pensando em jogar fora. Somente o fato de você demorar um pouco mais a se desfazer de sua cômoda velha, já contribui para a redução da derrubada de árvores de nossa flora. Outra opção torna-o(a) ainda mais engajado(a) e generoso(a): Ao se desfazer do móvel velho que o (a) incomoda oferte-o para alguém que, como eu, possui uma queda especial por coisas do passado. Com este gesto o cidadão ou a cidadã já pode solicitar a ficha de inscrição e entrar para o quadro dos trepidantes agentes do Greenpeace que luta pela preservação das florestas do mundo.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Em frente à minha janela tem uma árvore

Confesso que somente a sombra que ela faz em minha defesa e o canto do casal de sabiás, já seriam suficientes para que os homens que, a serviço do estado, cortam ou podam as árvores tivessem um pouquinho mais de sensibilidade ao fazer o que eles mesmos chamam de poda regular. Por algumas vezes lhes falei sobre a violência que empregam na poda, como se naquela residência verdejante não vivessem outras vidas, mas eles retrucaram dizendo que já saiam de seus locais de trabalho com a tarefa pré-determinada. O que eles queriam dizer com isso é que, quase sempre, para os bairros da zona norte e subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, a recomendação é poda radical. Mais uma vez justificam o ato vil dizendo que a rede aérea de iluminação assim a exige. Tem ainda a queda dos galhos sobre os carros, as reclamações dos preguiçosos que não gostam de varrer as calçadas, o entupimento das redes de águas pluviais...
Como podemos ver são tantas as justificativas que ficamos sem argumentos diante de outros tantos sustentados pela legalidade. Quando finalmente desistimos do combate ideológico, entra a moto-serra e deixa um toco cinzento e triste no lugar do que antes era uma árvore à espera de seus moradores e do desesperado encontro com a residência devastada.
Sofremos todos com a insensibilidade de homens e mulheres. Em contrapartida a natureza vem respondendo à altura procurando reequilibrar-se utilizando sensores que indicam o que precisa ser feito para curar os atos insanos, mas nem sempre as coisas funcionam como desejamos. As tragédias ocorrem por causa das falhas nos instrumentos de controle (imperfeitos e rudimentares) da natureza na tentativa de reparar os erros intencionais praticados por homens e mulheres.
A população de São Paulo, por exemplo, vive a reclamar das chuvas que a tudo alagam, mas se esquece de que alguma coisa resfriadora precisava entrar no lugar da tradicional garoa destruída pela ganância das grandes corporações industriais e imobiliárias. Todo mundo em São Paulo sonha com o impossível: trabalhar ou morar na Avenida Paulista ou em seus arredores.
Sabemos também que as nuvens carregadas de água não despejam o precioso líquido em qualquer lugar. Cada carneirinho que se desloca sai perguntando onde está mais quente para que a água seja despejada no lugar certo. Como quase sempre as maiores temperaturas acontecem nas áreas mais povoadas as chuvas acabam caindo de forma concentrada sobre as cabeças dos mais empobrecidos que nada fizeram para receber tamanho castigo.
Em dias recentes, várias pessoas, no município de Angra dos Reis, pagaram pelos erros dos poderes estadual e municipal. No afã de cobrar a conta geral aos que venderam as licenças ambientais na Baía da Ilha Grande, a quase infalível justiça divina acabou tirando a vida também dos ricos e pobres que estavam por perto. Quase quarenta pessoas pagaram uma conta que a outros era destinada.
Além da sombra que lambe minha janela e do gorjeio dos pássaros que acalantam minhas tardes e manhãs, não estou individualmente cobrando muitas coisas. Mais precisamente, acho que os podadores mandados precisam de cursos regulares sobre o trato com o meio ambiente, mas não somente sobre aquelas coisas técnicas que todos acham que devem aprender para que se tornem exímios mãos-de-tesouras. Falo dos signos da arte, das aulas de expressão corporal, das dinâmicas de grupo e de outras dezenas de ferramentas capazes de dar a homens e mulheres a redundante, mas não indispensável condição de humanidade.
Caulos, grande humorista, autor de Vida de Passarinho e um dos primeiros a preocupar-se com a questão ambiental, certa vez fez um desenho muito bonito que falava da tristeza de um passarinho ao voltar para seu ninho e encontrar apenas o cepo da árvore que, àquela altura, já boiava em um rio qualquer. Coisas simples como essa precisam fazer parte dos conteúdos curriculares dos podadores de árvores para que possam sempre lembrar-se de que ao cortar exageradamente os galhos de nossas árvores, além de acabarem com o meu refúgio térmico, deixam ao léu centenas de pequenos seres que lá construíram suas casas acreditando na vigilância perpétua da natureza.
Com essas bondades práticas não estamos livres da ira, mas nos aproximamos dos deuses e podemos dormir tranquilos na certeza de que se algo vier a dar errado, não terá sido por fruto de nossa omissão.











